
Guerreiro ou Cordeiro?
Por que transformamos o Jesus do sacrifício em um "Jesus Bad Boy" de combate?
O núcleo do evangelho é o Cordeiro que vence pela entrega. Mas nossa cultura frequentemente prefere um "Leão-guerreiro" que esmaga inimigos.
Essa transformação não é acidental: ela responde a necessidades humanas de vingança, poder e segurança, criando um Messias à nossa imagem.
1. A Nostalgia da Força e os Zelotes
No tempo de Jesus, havia quem fizesse o que muitos hoje esperam dEle: os Zelotes e Sicários. Eles andavam armados e pregavam a revolução violenta contra Roma.
O "outro" Jesus
Barrabás (cujo nome significa "Filho do Pai") era um insurrecto, provavelmente um zelote violento. O povo escolheu o "Messias Guerreiro" (Barrabás) e mandou crucificar o "Messias Cordeiro" (Jesus). A escolha por um "Jesus valente" que mata inimigos é, ironicamente, uma escolha por Barrabás.
O "Cordeiro" oferece um caminho lento (perdoar, suportar). O "Guerreiro" oferece a promessa rápida de retaliação.
2. O Paradoxo do Apocalipse (Leão x Cordeiro)
Muitos citam que Jesus voltará como "Leão da Tribo de Judá" para justificar violência. Mas veja o texto de Apocalipse 5:
- João ouve que o Leão venceu (v. 5).
- Quando João olha para ver o Leão, o que ele vê? "Um Cordeiro, como havendo sido morto" (v. 6).
A "vitória do Leão" É o sacrifício do Cordeiro. Jesus subverte a imagem militarista até no fim dos tempos. A espada que sai de sua boca (Ap 19) é sua Palavra, não aço.
3. A Instituição ama a Batalha
Uma igreja que se vê como "exército" ganha vantagens institucionais imediatas:
A ética do Cordeiro (autocrítica, cuidado) dá mais trabalho e oferece menos controle sobre a massa.
4. O "Nós" vs "Eles"
A lógica do guerreiro exporta o mal: o problema está "lá fora" (na cultura, na política, no outro). A comunidade se sente pura.
A ética do Cordeiro coloca o conflito para dentro: meu orgulho, minha violência. Isso exige conversão real, não apenas adesão a um grupo.
5. Masculinização do Sagrado
"Macho espiritual" virou sinônimo de dureza e agressividade. O Cordeiro é visto como "fraco". O "Jesus Guerreiro" legitima um ideal de masculinidade combativa que molda a linguagem e a política da igreja.
Conclusão
O "Leão-super-herói" é menos uma leitura de Cristo e mais um espelho do desejo humano. O verdadeiro teste de fé é aceitar o Cordeiro que vence perdendo, que não revida e que nos chama a morrer para o ego.