Martin Buber: Jesus, emunah e a fé que virou fórmula
O filósofo judeu chamou Jesus de "grande irmão" e distinguiu a fé-confiança de Jesus da fé-crença que associava a Paulo.
Um filósofo judeu diante de Jesus
Martin Buber nasceu em Viena em 1878 e morreu em Jerusalém em 1965. Não era teólogo cristão, nem convertido, nem apologista de coisa alguma que se pareça com cristianismo. Era um filósofo judeu — provavelmente o mais influyente do século XX fora da tradição estritamente rabínica — formado desde criança na casa do avô, Salomon Buber, um dos grandes editores de textos midráshicos de sua geração. Essa formação marcou tudo o que Buber escreveu depois: uma fidelidade profunda às fontes judaicas, lida não como arqueologia, mas como algo vivo.
E ainda assim, dentro dessa fidelidade, Buber reservou a Jesus um lugar extraordinário. Não o lugar que o cristianismo tradicional reserva — o de Messias encarnado, segunda pessoa da Trindade, objeto de culto — mas um lugar real, sério, quase fraterno. Buber chamou Jesus de "meu grande irmão" (mein grosser Bruder). A frase é documentada e costuma surpreender tanto cristãos quanto judeus: um pensador judeu, escrevendo depois da Shoah, depois de séculos de perseguição feita em nome de Cristo, ainda assim reivindicando Jesus como parte da própria história espiritual de Israel — sem por isso aceitar a cristologia que a igreja construiu sobre ele.
Essa combinação é o que torna Buber indispensável nesta série. Ele não precisa fazer de Jesus um cristão no sentido posterior do termo para considerá-lo grande. E não precisa deixar de ser judeu — nem suavizar o que isso significa — para reconhecer a força da figura de Jesus dentro da história judaica.
A filosofia do encontro: Eu-Tu e Eu-Isso
Para entender por que Buber lê Jesus da forma como lê, é preciso passar primeiro pela obra que o tornou mundialmente conhecido: Eu e Tu (Ich und Du), publicada em 1923. Ali Buber propõe que existem duas formas fundamentalmente diferentes de uma pessoa se relacionar com o mundo, e ele as nomeia por meio de dois pares de palavras: Eu-Tu (Ich-Du) e Eu-Isso (Ich-Es).
Na relação Eu-Isso, o outro é tratado como objeto: algo que se observa, categoriza, usa, analisa. É o modo necessário para boa parte da vida prática — e não é, em si, algo ruim. Mas quando esse modo se torna o único modo, a pessoa perde a capacidade de encontro genuíno. Já na relação Eu-Tu, o outro deixa de ser objeto e se torna presença: há reciprocidade, há um encontro que não pode ser inteiramente descrito, medido ou possuído. Para Buber, é nesse tipo de encontro — não na acumulação de informação sobre o outro — que a vida espiritual autêntica acontece. E é também nesse tipo de encontro, argumenta ele, que Deus se revela: não como um objeto de estudo teológico, mas como um Tu eterno que se encontra, se perde e se busca de novo.
Essa filosofia do diálogo não é um apêndice à leitura que Buber faz de Jesus — é a chave dela. Se a relação verdadeira com Deus é relacional, viva, feita de confiança e presença, então a pergunta natural que Buber faz à tradição cristã é: em que ponto essa relação viva começou a ser substituída por outra coisa? Por um conjunto de proposições a respeito de Deus, em vez de um encontro com Deus?

Ilustração gerada para este artigo. Representa a relação Eu-Tu descrita por Buber; é uma imagem conceitual.
Duas formas de fé: emunah e pistis
É essa pergunta que Buber desenvolve com mais rigor em sua obra mais diretamente relevante para o tema cristão: Duas Formas de Fé (Zwei Glaubensweisen, 1950; publicada em inglês como Two Types of Faith). O livro constrói uma distinção que se tornou uma referência obrigatória — mesmo entre quem discorda dela.
De um lado está a emunah, palavra hebraica que aparece repetidamente no Tanakh e que Buber traduz como confiança, fidelidade, um estado de relação. Emunah não é, em primeiro lugar, assentimento a uma lista de afirmações verdadeiras sobre Deus. É a postura de quem confia — como se confia em uma pessoa, não como se aceita uma tese. É um verbo antes de ser um substantivo: um modo de estar em relação, sustentado no tempo, testado na fidelidade mútua.
Do outro lado está a pistis, palavra grega geralmente traduzida como "fé" no Novo Testamento, mas que Buber lê como algo estruturalmente diferente: crer-que. Pistis, para Buber, tende a se organizar em torno de um conteúdo proposicional — crer que Jesus é o Messias, crer que ele ressuscitou, crer que determinadas afirmações cristológicas são verdadeiras. Não é que Buber negue que exista confiança dentro da pistis paulina; é que ele enxerga um deslocamento de ênfase, uma mudança na estrutura mesma do que significa "ter fé".
Para Buber, o problema aparece quando "confiar em Deus" vira principalmente "aceitar que determinadas afirmações sobre Cristo são verdadeiras". Emunah pede uma relação; pistis, tal como ele a descreve, pede um assentimento.
Buber associava a emunah a Jesus e à religiosidade judaica em que Jesus estava inserido, e via em Paulo a figura decisiva na virada em direção à pistis — o momento em que a fé cristã primitiva se organiza cada vez mais em torno de proposições sobre a pessoa e a obra de Cristo, e cada vez menos em torno da confiança relacional que caracterizava a piedade judaica que o próprio Jesus praticava.
Habacuque 2:4: o texto no centro do debate
O coração exegético dessa discussão não é uma abstração filosófica — é uma única linha do profeta Habacuque, escrita em um contexto de crise e espera: "o justo viverá pela sua fé" (Habacuque 2:4). Em hebraico, a palavra ali é, precisamente, uma forma de emunah — fidelidade, firmeza, uma confiança que se sustenta mesmo quando as circunstâncias não confirmam imediatamente a promessa de Deus. No contexto original, Habacuque fala a um povo que espera o juízo de Deus contra a violência e a injustiça; "viver pela emunah" é permanecer fiel, firme, confiante, enquanto a resposta não chega.
Essa mesma frase é citada duas vezes por Paulo no Novo Testamento — em Romanos 1:17 e em Gálatas 3:11 — e em ambos os casos ela se torna a base textual para o argumento de que a justificação diante de Deus acontece "pela fé", em contraste com "as obras da lei". É exatamente aqui que a tese de Buber ganha peso: a mesma palavra hebraica que, no profeta, descrevia uma postura relacional de confiança e fidelidade contínua, é retomada por Paulo dentro de uma arquitetura teológica organizada em torno de pistis — e, na leitura de Buber, o sentido relacional original corre o risco de ser substituído por um sentido mais jurídico e proposicional: fé como o ato, quase pontual, de crer corretamente naquilo que salva.
Não é preciso aceitar integralmente essa leitura para reconhecer sua força. O próprio fato de Paulo recorrer a Habacuque mostra que ele não abandona a emunah hebraica — ele a reivindica, a cita, constrói sobre ela. A pergunta que Buber levanta é se, ao fazer isso dentro de uma estrutura teológica voltada para Cristo como conteúdo de crença, algo na textura relacional da palavra original se perde ou se transforma. É uma pergunta legítima mesmo para quem discorda da resposta que Buber dá a ela.
O Shemá e a confiança que Jesus praticava
Há ainda outro fio bíblico que ajuda a situar a emunah dentro da própria vida religiosa de Jesus: o Shemá. "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força" (Deuteronômio 6:4-5) é a oração central da fé judaica, recitada diariamente, e Jesus a cita explicitamente quando lhe perguntam qual é o maior mandamento (Marcos 12:28-34). Nesse episódio, Jesus não introduz uma fé nova: ele reafirma o coração da fé judaica que já praticava, uma fé estruturada em torno de amor, confiança e relação — não em torno de um credo formal a respeito de sua própria identidade.
É justamente esse tipo de episódio que sustenta a leitura de Buber sobre Jesus "dentro de Israel": o Jesus dos evangelhos, tal como Buber o lê, vive e ensina uma emunah judaica reconhecível, ancorada no Shemá, na Torá, na piedade profética. A distância que Buber traça não é entre Jesus e o judaísmo, mas entre essa emunah praticada por Jesus e a pistis que, segundo ele, viria a se consolidar como estrutura da fé cristã posterior — sobretudo a partir de Paulo.
Jesus dentro de Israel, não fora dele
A contribuição mais duradoura de Buber para esta série está em recusar duas simplificações que continuam tentadoras. A primeira é a simplificação cristã tradicional, que só consegue enxergar grandeza em Jesus se ele for extraído do judaísmo e recolocado dentro de uma categoria inteiramente nova. A segunda é a simplificação oposta, também comum, que só consegue preservar a identidade judaica de Jesus reduzindo sua importância ou tratando-o como uma figura menor, um entre tantos mestres do período.
Buber recusa as duas. Ele não precisa fazer de Jesus um cristão, no sentido eclesial posterior, para reconhecer nele uma figura de peso extraordinário. E não precisa negar ou minimizar a judaicidade de Jesus para dizer isso — pelo contrário, é precisamente porque lê Jesus como profundamente judeu que consegue nomear com precisão o que, a seu ver, mudou depois.
Isso recoloca também a figura de Paulo no centro certo do debate. Buber não faz a pergunta ingênua "Paulo concordava com Jesus?", como se bastasse comparar frases isoladas. A pergunta que ele faz é estrutural: a própria arquitetura da fé foi transformada? Ela deixou de ser, em sua forma predominante, uma confiança existencial e relacional — a emunah do Shemá, dos profetas, de Habacuque — para se tornar uma fé cujo conteúdo central e organizador é a afirmação sobre quem Cristo é?
Mesmo quem rejeita a conclusão de Buber — e muitos estudiosos sérios rejeitam, ou pelo menos a relativizam — costuma reconhecer que a pergunta continua excelente. Ela obriga o leitor a distinguir, dentro da própria noção cristã de fé, o que é confiança viva e o que é assentimento proposicional; e a perguntar se essas duas coisas sempre andaram juntas, ou se em algum momento uma passou a substituir a outra.
Uma tese contestada — como tese, não como fato
É importante marcar com clareza: a oposição rígida que Buber traça entre um "mundo judaico" da emunah e um "mundo grego" da pistis é vista por muitos estudiosos como excessivamente esquemática. Um artigo influente na Scottish Journal of Theology revisita Two Types of Faith décadas depois de sua publicação e argumenta que a fronteira desenhada por Buber é mais nítida no papel do que na realidade histórica: há confiança relacional dentro da pistis paulina, e há elementos de assentimento proposicional dentro da emunah veterotestamentária. Outro estudo, publicado pela University of Chicago, situa o livro de Buber dentro do contexto protestante em que foi recebido e debatido, mostrando como teólogos cristãos da época dialogaram — e discordaram — com sua tese ponto a ponto.
Nada disso invalida a contribuição de Buber. Ele identificou algo real: existe, de fato, uma diferença perceptível entre uma fé vivida primariamente como relação de confiança contínua e uma fé organizada primariamente em torno de proposições corretas a se afirmar. O problema não está em notar essa diferença, mas em transformá-la numa fronteira étnica rígida — judeus de um lado, com emunah; gregos e cristãos de outro, com pistis — quando a evidência textual mostra as duas dimensões entrelaçadas dos dois lados. Ler Buber com esse cuidado é tratá-lo como ele merece: um pensador que enxergou algo profundo, mas cuja tese, como toda tese boa, precisa ser testada e temperada, não simplesmente aceita ou descartada por inteiro.
O legado de um tradutor e professor
Buber não foi só filósofo de gabinete. Ao lado de Franz Rosenzweig, dedicou décadas a uma tradução da Bíblia hebraica para o alemão que tentava preservar o ritmo oral, a repetição e a textura semítica do original — um projeto de tradução que era, ele mesmo, uma forma de defender a emunah contra a abstração. Em 1938, com a ascensão do nazismo, Buber emigrou para a Palestina sob mandato britânico, onde se tornou professor de filosofia social na Universidade Hebraica de Jerusalém. Viveu ali até sua morte, em 1965, continuando a escrever sobre hassidismo, diálogo inter-religioso e a vida em comunidade.
Essa biografia importa para entender por que sua leitura de Jesus carrega o peso que carrega. Não é a leitura de alguém de fora, curioso ou hostil. É a leitura de um judeu que dedicou a vida a recuperar, traduzir e habitar as fontes hebraicas — e que, a partir desse lugar, ainda assim encontrou em Jesus algo digno do nome "grande irmão".
Leitura recomendada
Dois Tipos de Fé (Two Types of Faith) — o livro central para entender a distinção entre emunah e pistis, e a leitura que Buber faz de Jesus e Paulo.
Eu e Tu (Ich und Du) — a obra que fundamenta sua filosofia relacional e sua compreensão do encontro com o outro e com Deus.
O Caminho do Homem — uma introdução curta e acessível à espiritualidade judaica de Buber, especialmente sua leitura do hassidismo.
Fontes e leituras
- •Internet Encyclopedia of Philosophy — Martin Buber
- •Cambridge University Press, Scottish Journal of Theology — "Knowing God and Knowing About God: Martin Buber's Two Types of Faith Revisited"
- •University of Chicago Press Journals — "Martin Buber's Two Types of Faith in Its Protestant Context"
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