Livros apócrifos da Bíblia: o que são e por que ficaram fora do cânon
Por que a Bíblia católica tem 73 livros e a protestante tem 66? A resposta passa pelos chamados livros apócrifos — do grego apokryphos, "escondido" — textos judaicos escritos aproximadamente entre 300 a.C. e 100 d.C. que não entraram no cânon hebraico nem no protestante, mas fazem parte das Bíblias católica e ortodoxa. Conhecê-los não é curiosidade acadêmica: é a chave para entender o período entre os dois testamentos e as decisões que moldaram a Bíblia que você lê hoje.
O silêncio de 400 anos que não foi silêncio
Entre Malaquias, o último profeta do Antigo Testamento, e João Batista existe um intervalo de cerca de quatro séculos que os protestantes costumam chamar de "período do silêncio". Mas o mundo judaico não parou nesse tempo: foi nele que Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente, que os impérios ptolemaico e selêucida disputaram a Judeia, que a revolta dos Macabeus expulsou os opressores gregos e que Roma ascendeu como potência dominante. Os livros apócrifos são exatamente o retrato literário desse mundo em transição — o período intertestamentário que prepara o cenário do Novo Testamento.
Antes de tudo, uma distinção de vocabulário: católicos chamam esses livros de deuterocanônicos ("segundo cânon"), reservando "apócrifos" para textos que nem eles aceitam, como os evangelhos gnósticos. Protestantes chamam de "apócrifos" os deuterocanônicos católicos. Neste artigo, seguimos o uso comum em português: apócrifos são todos os textos fora do cânon protestante de 66 livros.
Quais são os livros deuterocanônicos
O grupo principal reúne livros escritos por judeus piedosos, preservados na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) e aceitos pela Igreja Católica e pelas igrejas ortodoxas:
- •Tobias (200–180 a.C.): a história de Tobit, um judeu piedoso exilado na Assíria, e da jornada de seu filho Tobias guiado pelo anjo Rafael — com casamento, cura de cegueira e lições sobre oração, esmola e vida familiar.
- •Judite (150–100 a.C.): uma viúva judia salva sua cidade decapitando o general assírio Holofernes. Uma narrativa heroica sobre fé e coragem em tempos de crise — mas com imprecisões históricas notórias, como chamar Nabucodonosor de rei da Assíria.
- •1 Macabeus (c. 100 a.C.): o relato histórico da revolta contra o império selêucida (175–134 a.C.), liderada por Matatias e seus filhos, culminando na purificação do Templo — a origem da festa de Hanukkah, que o próprio Jesus celebrou (João 10:22).
- •2 Macabeus (c. 124 a.C.): cobre o mesmo período com ênfase teológica, incluindo o martírio dos sete irmãos e sua mãe. Contém a primeira menção explícita da ressurreição corporal na literatura judaica — e a oração pelos mortos (12:43-46), base católica para o purgatório.
- •Sabedoria de Salomão (50 a.C.–40 d.C.): tratado filosófico atribuído a Salomão mas escrito em Alexandria, que exalta a sabedoria como emanação divina e critica a idolatria. Vale comparar com Hebreus 1 e João 1.
- •Eclesiástico (Sirácida) (c. 180 a.C.): coleção de ensinamentos de Jesus Ben Sira de Jerusalém, no estilo de Provérbios — ética, família, amizade, riqueza, temor do Senhor. Fragmentos hebraicos foram encontrados em Qumran e Massada.
- •Baruc (200–60 a.C.): atribuído ao escriba de Jeremias, contém confissão de pecados, um poema sobre a sabedoria e palavras de esperança a Jerusalém, além da "Carta de Jeremias".
- •Adições a Ester e a Daniel (século II–I a.C.): seções presentes apenas na versão grega — orações de Mordecai e Ester, o Cântico dos Três Jovens na fornalha, a história de Susana e o episódio de Bel e o Dragão.
Por que esses livros ficaram fora do cânon protestante?
Os motivos variam de livro para livro, mas os critérios se repetem. Primeiro, nenhum deles faz parte do cânon hebraico (o Tanakh): os judeus da Palestina nunca os reconheceram como Escritura, seja por terem sido escritos tarde demais (1 Macabeus, Eclesiástico), seja por circularem em grego e não em hebraico (2 Macabeus, Sabedoria). Segundo, vários apresentam problemas históricos ou de autoria: Judite mistura impérios e cronologias; Baruc e Sabedoria são pseudoepígrafos — atribuídos a autores que não os escreveram. Terceiro, alguns contêm doutrinas sem paralelo no restante da Escritura, como a oração pelos mortos em 2 Macabeus e a imortalidade da alma de matiz platônico em Sabedoria.
A história do cânon ajuda a ver o quadro completo. A Septuaginta (250–100 a.C.) incluiu os apócrifos, e era essa a versão usada pelos judeus da diáspora e pela igreja primitiva. Por volta de 90 d.C., o chamado Concílio de Jâmnia consolidou o cânon hebraico de 39 livros — sem os apócrifos. Entre os Pais da Igreja (séculos II–V), as opiniões se dividiram: Jerônimo, tradutor da Vulgata, distinguiu entre livros "canônicos" e livros "eclesiásticos" (úteis para edificação, mas não para fundamentar doutrina); Agostinho os incluía. A questão só foi formalmente decidida no Concílio de Trento (1546), quando a Igreja Católica os declarou canônicos em resposta à Reforma. Lutero, por sua vez, os colocou entre os testamentos como "úteis, mas não iguais às Escrituras" — e, com o tempo, as Bíblias protestantes deixaram de imprimi-los.
Os evangelhos gnósticos são outra categoria
É importante não misturar os deuterocanônicos com os chamados evangelhos gnósticos — Tomé, Maria Madalena, Judas e outros. Esses textos, escritos entre os séculos II e III d.C., nunca foram considerados Escritura por nenhuma tradição cristã: nem católica, nem ortodoxa, nem protestante. Seu valor é puramente histórico.
- •Evangelho de Tomé (50–140 d.C.): 114 ditos atribuídos a Jesus, sem narrativa. Alguns têm paralelos canônicos; outros refletem a ênfase gnóstica em "conhecimento secreto" — o oposto do evangelho público de Jesus.
- •Evangelho de Maria Madalena (120–180 d.C.): fragmentário; Maria recebe revelações privadas do Ressuscitado sobre a alma, dentro de uma cosmologia gnóstica que trata a matéria como má.
- •Evangelho de Judas (130–170 d.C.): inverte a narrativa canônica e apresenta Judas como herói que ajuda Jesus a escapar do corpo material — produto de uma seita gnóstica específica, os cainitas.
A datação tardia, a teologia gnóstica e a ausência de qualquer vínculo apostólico explicam por que a igreja antiga os rejeitou por unanimidade. Documentários sensacionalistas à parte, não existe "evangelho proibido" escondendo o "verdadeiro Jesus": existe literatura sectária do segundo século reagindo aos evangelhos que já circulavam.
Por que vale a pena estudar os apócrifos
Rejeitar um livro como Escritura não significa ignorá-lo. Há pelo menos quatro razões para o leitor protestante conhecer os apócrifos:
- •Contexto histórico: eles iluminam os 400 anos entre os testamentos — a revolta macabeia, a helenização, o desenvolvimento das crenças sobre anjos, demônios e ressurreição que o Novo Testamento assume como conhecidas.
- •Influência no Novo Testamento: a ressurreição corporal (2 Macabeus), a sabedoria personificada (Sabedoria de Salomão) e a angelologia aparecem desenvolvidas antes do NT. Hebreus 11:35 provavelmente alude aos mártires de 2 Macabeus 7.
- •Uso por Jesus e pelos apóstolos: Jesus celebrou Hanukkah (João 10:22), festa cuja origem está narrada em 1 Macabeus; Tiago parece conhecer o Sirácida.
- •Diálogo ecumênico: entender esses livros — e por que católicos e ortodoxos os consideram Escritura — torna a conversa entre tradições mais honesta e menos caricata.
Por onde começar a leitura
Se você nunca leu um apócrifo, uma ordem sensata: comece por 1 Macabeus, o mais histórico e acessível — essencial para entender Hanukkah e o cenário político do Novo Testamento. Siga com Eclesiástico, sabedoria prática no estilo de Provérbios, e depois Sabedoria de Salomão, lendo em paralelo com Hebreus 1 e João 1. Feche com Tobias, uma história cativante sobre fé, família e providência.
No Memra, a seção de livros apócrifos apresenta cada um deles com data, gênero, temas principais, o motivo da exclusão do cânon, a visão católica e o valor histórico — e vários já podem ser lidos na íntegra dentro da leitura das Escrituras. Ler o texto com o contexto ao lado muda completamente a experiência.
No fim, a pergunta "por que esses livros ficaram fora?" tem uma resposta que fortalece, e não enfraquece, a confiança no cânon: a igreja não escolheu livros aleatoriamente — ela reconheceu, ao longo de séculos e com critérios públicos, quais textos carregavam autoridade apostólica e profética. Os apócrifos ficaram na fronteira. E é exatamente da fronteira que se enxerga melhor o mapa inteiro.
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