Mostarda, fermento e o crescimento invisível
Da série A Bíblia não é Literal, publicada pelo Memra.

Um homem dorme e acorda, dorme e acorda, e a semente cresce enquanto ele não olha. É essa a cena com que Marcos resume, quase de passagem, uma das ideias mais desconcertantes que os Evangelhos atribuem a Jesus: o Reino de Deus avança por um processo que o próprio agricultor não entende e não controla. "Ele mesmo não sabe como", diz o texto grego, numa frase que soa quase como confissão de ignorância colocada na boca de quem deveria ser o especialista da lavoura. É a partir dessa admissão — não sei como isso funciona, mas funciona — que vale a pena entrar nas três pequenas parábolas do crescimento: a mostarda, o fermento, a semente que germina sozinha.
A Menor De Todas As Sementes
Mateus 13:31-32 e Lucas 13:18-19 contam praticamente a mesma história com quase as mesmas palavras: alguém toma um grão de mostarda e o planta em seu campo (ou em seu jardim, no caso de Lucas); a semente, descrita como a menor entre todas, cresce até se tornar a maior das hortaliças, uma árvore em cujos ramos as aves do céu fazem ninho. A frase funciona por atrito. Ninguém plantaria mostarda esperando produzir sombra para pássaros — é hortaliça, não árvore de mata. O exagero é proposital: transforma uma planta comum, quase rasteira, em imagem de abrigo e alcance.
Marcos usa a mesma comparação em 4:30-32, mas a encaixa depois de outra parábola que os demais evangelistas não registram: a do homem que lança a semente à terra e "dorme e se levanta, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem que ele saiba como" (Mc 4:27). A terra, diz o texto, "por si mesma" produz primeiro a erva, depois a espiga, depois o grão cheio na espiga — e só quando o fruto amadurece o homem volta a agir, empunhando a foice porque chegou a colheita. Entre a semeadura e a colheita, o agricultor praticamente desaparece da cena. Ele semeia no início e colhe no fim; o meio pertence a um processo que a narrativa atribui à terra, não a ele.
Essa sequência importa porque muda o centro de gravidade da imagem. Se olhássemos só para a mostarda, seríamos tentados a admirar a competência de quem soube fazer pouco render muito. Marcos corta essa tentação pela raiz: ninguém aqui sabe como a semente cresce. O verbo é literal — "automatê", por si mesma — e é dessa palavra grega que vem, por vias bem distintas, o nosso "automático". A terra opera segundo uma lógica que não pede permissão ao agricultor.
Três Medidas De Farinha
A parábola do fermento aparece colada à da mostarda tanto em Mateus 13:33 quanto em Lucas 13:20-21, como se os dois evangelistas tivessem herdado o par já formado. Uma mulher pega um pouco de fermento e o esconde em três medidas de farinha, "até que tudo ficasse levedado". Três medidas de farinha não é porção doméstica pequena: é quantidade suficiente para alimentar dezenas de pessoas, o tipo de massa que se prepara para uma ocasião de peso, não para o jantar de uma família. O detalhe amplia a desproporção: uma quantidade ínfima de fermento, misturada e depois invisível dentro da massa, acaba por determinar o destino de tudo aquilo.
Há uma tensão que vale enfrentar de frente. Em outras passagens do Novo Testamento o fermento carrega sentido negativo — Jesus adverte os discípulos contra "o fermento dos fariseus" (Mt 16:6), e Paulo fala do "fermento velho" que precisa ser removido (1Co 5:6-8). Essa ambivalência já levou alguns leitores a suspeitar que também aqui, em Mateus 13:33 e Lucas 13:21, a imagem carregaria conotação de corrupção — o Reino de Deus como algo que se infiltra e contamina. Mas o contexto imediato resiste a essa leitura: a ação do fermento é apresentada sem qualquer sinal de alarme, encaixada entre a mostarda que cresce e vira abrigo e a explicação, em Mateus, sobre o joio e o trigo. O movimento da parábola é de multiplicação benéfica, não de infecção. A palavra "fermento" tinha usos variados na fala corrente, e forçar uma leitura sombria aqui exige ignorar a direção evidente da frase — "até que tudo ficasse levedado" soa a plenitude alcançada, não a mal que se espalha.
O Que O Semeador Não Controla
A pergunta que essas três imagens colocam, lidas em conjunto, não é "o Reino vai crescer?", mas "quem é responsável pelo crescimento?". A resposta que emerge, sobretudo de Marcos 4:26-29, é desconfortável para qualquer pastoral ansiosa: não é o semeador. Ele planta, e depois dorme. A frase é quase cômica em sua simplicidade — dorme e se levanta, noite e dia — como se o texto quisesse enfatizar que a vida do agricultor segue seu curso normal, alheia ao mistério que acontece debaixo da terra.
Isso não anula a ação humana. Alguém semeia, alguém amassa o fermento na farinha, alguém no final empunha a foice. A participação é real em ambas as pontas do processo. O que fica fora do alcance humano é o miolo: a germinação, a fermentação, a transformação propriamente dita. Nenhuma técnica agrícola do século I explicava por que uma semente lançada à terra se tornava planta — e o texto não tenta explicar. Ele nomeia o mistério e segue adiante. Essa é uma diferença importante entre as parábolas e um tratado teológico sobre providência: elas não argumentam, mostram. Deixam o ouvinte com a imagem do lavrador dormindo e a pergunta implícita — se ele não sabe como a semente cresce, por que você haveria de exigir saber como o Reino de Deus avança?
Árvores Que Abrigam Impérios
Há um eco possível, e debatido, entre a árvore de mostarda e as grandes árvores do Antigo Testamento que simbolizam impérios oferecendo abrigo a povos — a visão de Ezequiel sobre o cedro que Deus planta e faz crescer até que "toda ave de toda espécie habite à sua sombra" (Ez 17:22-24), ou a árvore do sonho de Nabucodonosor em Daniel 4, cujos ramos dão pouso às aves do céu. Se a plateia de Jesus reconhecia essa ressonância, a parábola ganha uma camada política: o Reino de Deus se apresenta como sucessor humilde desses impérios grandiosos — não um cedro plantado por decreto real, mas uma hortaliça que cresce sem alarde e, ainda assim, acaba oferecendo o mesmo abrigo.
É preciso, porém, reconhecer o limite dessa leitura. A extensão da alusão não é unânime entre os intérpretes: alguns veem aí referência deliberada aos textos proféticos, outros consideram que a imagem das aves nos ramos é simplesmente parte do repertório natural de qualquer história sobre árvores, sem necessidade de remeter a Ezequiel ou Daniel. As notas de leitura do Evangelho de Mateus discutem justamente essa tensão entre parábola e alegoria — até que ponto cada detalhe da imagem carrega peso simbólico e até que ponto é apenas cenário necessário para a cena funcionar. Não há como decidir a questão com certeza; o que se pode afirmar é que a leitura política é possível e coerente com o restante do ensino de Jesus sobre o Reino, sem que isso a torne obrigatória.
Crescer Não É Prova De Nada
A tentação mais recorrente na história da leitura dessas parábolas é convertê-las em profecia do sucesso institucional: a pequena semente seria a Igreja em seus primórdios, a grande árvore seria sua expansão numérica, política, territorial. É uma leitura sedutora porque parece confirmada pelos fatos — de fato, um movimento que começou com poucos discípulos na Galileia acabou se espalhando por impérios. Mas a parábola não fala de instituição; fala de Reino de Deus, uma categoria que os próprios Evangelhos tratam como distinta, às vezes até oposta, aos aparatos de poder que os homens constroem. Crescer em números não é, por si mesmo, evidência de fidelidade. A história bíblica conhece expansões que se afastaram do propósito original tanto quanto conhece começos pequenos que permaneceram fiéis.
O contrapeso simétrico também merece ser dito: a pequenez inicial não é virtude automática, nem toda lentidão é sinal de profundidade espiritual. Seria fácil transformar essas parábolas num elogio genérico ao discreto, como se tudo que começa pequeno e demora fosse, por definição, obra de Deus. O texto não afirma isso. Ele afirma algo mais preciso: que o Reino de Deus, especificamente, cresce dessa maneira — começo desproporcional ao fim, processo alheio ao controle de quem planta, efeito que acaba alcançando mais do que a origem sugeria. Generalizar esse padrão para qualquer empreendimento humano que comece pequeno é usar a parábola fora do seu alvo.
Vale reparar num detalhe fácil de atravessar sem perceber: Marcos não descreve apenas um crescimento, mas uma sequência com três etapas nomeadas — primeiro a erva, depois a espiga, depois o grão cheio na espiga (Mc 4:28). O texto poderia ter dito simplesmente "a semente cresceu até dar fruto"; em vez disso, detém-se em cada estágio como quem observa de fora, sem pressa de chegar ao resultado. Essa insistência na ordem tem função precisa: ela impede que o leitor trate o crescimento como um salto instantâneo entre semeadura e colheita. Há fases, e cada uma delas se impõe à seguinte sem que o agricultor precise intervir para que isso aconteça. A erva não decide se tornar espiga; a espiga não negocia se vai encher de grão. O verbo "por si mesma" que qualifica a terra em 4:28 não descreve um único evento de germinação, mas todo esse encadeamento — do broto ao grão maduro — como propriedade da terra, não talento do homem que a lavrou.
Essa insistência na sequência dialoga, por contraste, com a pressa que marca boa parte da narrativa de Marcos em outros pontos: o evangelista costuma usar "logo" (eutheos) para acelerar a ação, encadear milagres, apressar deslocamentos. Na parábola do crescimento oculto, esse ritmo se suspende. Entre o v. 26 e o v. 29 não há nenhum "logo" governando o meio do processo — a palavra só reaparece no fim, quando "logo lança a foice, porque é chegada a ceifa" (Mc 4:29). O contraste é deliberado: o evangelista que em outros lugares corre para narrar reserva aqui um espaço de tempo indeterminado, sem marcadores de urgência, exatamente para a parte da história em que nada visível parece estar acontecendo. A aceleração volta somente quando há trabalho humano a fazer de novo — colher. Isso sugere que o "logo" de Marcos não é sinônimo de pressa narrativa gratuita, mas de ação humana pronta a responder ao momento certo; onde a ação humana está ausente, o relógio do texto também se recolhe.
Vale notar ainda que essa mesma estrutura de três fases — plantar, esperar sem entender, colher no tempo certo — não aparece em Mateus nem em Lucas, que preservam apenas a mostarda e o fermento sem a parábola do crescimento oculto. Isso significa que a insistência na sequência e no vazio de agência intermediário é uma escolha editorial exclusiva de Marcos, não um traço universal da tradição sobre essas parábolas. Se o leitor quisesse extrair da mostarda ou do fermento uma lição sobre o mistério do meio do processo, precisaria emprestar essa ênfase de outro evangelho — porque nem Mateus 13:31-33 nem Lucas 13:18-21 se detêm nela. É Marcos, e somente Marcos, quem transforma a espera indefinida entre a semeadura e a colheita em objeto explícito de reflexão, dando a essa lacuna um peso teológico que as outras duas parábolas, por si mesmas, não carregam.
O Que Fica Depois Da Colheita
A imagem final de Marcos — "e logo lança a foice, porque é chegada a ceifa" (Mc 4:29) — devolve ao agricultor um papel ativo, mas só depois que o processo invisível terminou seu trabalho. Há algo de sóbrio nessa estrutura de início e fim humanos, com um vazio de agência no meio. Ela recusa tanto o ativismo ansioso, que quer garantir o resultado a cada instante, quanto a passividade que abandona a tarefa por completo. Semeia-se. Espera-se. Colhe-se. O que acontece entre a semeadura e a colheita pertence a uma lógica que a parábola se recusa a explicar, e essa recusa é, ela mesma, parte do ensino.
Fica então uma pergunta que essas três pequenas histórias deixam em aberto para quem as lê hoje, dentro ou fora de qualquer comunidade religiosa organizada: existe, na sua vida, algo pequeno, quase invisível, que você lançou e agora não sabe explicar como cresceu — e que, justamente por escapar ao seu controle, talvez seja o sinal mais confiável de que ali havia mesmo alguma coisa viva?
Fontes Deste Texto
Base primária: Mateus 13:31–33; Marcos 4:26–32; Lucas 13:18–21. Texto bíblico em português. As observações literárias se referem às passagens indicadas; as aplicações do Memra são interpretações editoriais.
50 · USCCB · NABRE | Mateus 13: texto e notas | https://bible.usccb.org/bible/matthew/13 | — Parábola, alegoria e diferenças de interpretação das imagens agrícolas.
Continue o estudo no Memra
Leia o curso completo com acompanhamento de progresso e referências conectadas.
Abrir o curso